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O PÉ DE SAPUCAIA
Administrator Seg, 13 de Outubro de 2008 01:04 Imprimir E-mail

  Os fins de semana tediosos na Fazenda Campo Alegre eram amenizados com as visitas dos parentes. Ora nós íamos à casa de um deles, ora um deles vinha nos visitar. Eram momentos de muita alegria e diversão. As mulheres se reuniam na cozinha, em torno do fogão de lenha, os homens se aglutinavam no curral dos bois, e as crianças se atiravam no  riacho ou no pomar, onde havia muitas frutas. Era uma verdadeira festa, que se queria nunca ter fim. Todos adoravam e nossas famílias estreitavam os laços de amizade.
     Aliás, todos é exagero. Eu, na verdade, detestava. Não que não gostasse dos parentes, dos primos e das primas. No fundo, eu também gostava. Mas no raso, não era bem assim não. Eu era muito novo e muito tímido. Tinha dez anos. Apesar do carinho que  tinha pelos parentes, tinha dificuldade de me relacionar carinhosamente com eles. Naquele tempo eu era bicho do mato.

     Mamãe havia dado à luz o meu irmão caçula. Minha madrinha viera   ficar com ela alguns dos quarenta dias do resguardo.  Trouxe consigo as duas filhas moças. As meninas tinham belezas intensas, mas de tonalidades diferentes. Uma era morena, fogosa, de cabelos longos e escorridos, como uma enorme cachoeira, derramando brilho e esplendor. A outra era loira, de  cabelos levemente ondulados e pele branca como leite de gameleira. Parecia uma boneca, meiga, tímida, inocente.
      Minha madrinha era também a madrinha de um primo meu, que morava na fazenda contígua. Nesse  em que foi nos visitar, ela passou primeiro  por lá, cumprimentou o afilhado, deu-lhe de presente uma dúzia de ovos para chocar, um enorme abraço e um beijo. Assim ela fazia. As filhas também cumprimentaram o primo com o mesmo carinho, o mesmo abraço forte.
      Depois de tomarem um cafezinho, foram para nossa casa. Mamãe as recebeu na porteira, abriando as tramelas. A manhã estava gostosa, uma brisa fresca soprava, espalhando o cheiro das flores do pé de oiti que crescia no canto do curral. Meus irmãos apareceram todos, uns pela porta, outros, mais tímidos, pelas janelas, olhando desconfiados. Mas os olhos da minha madrinha procuravam mesmo era o afilhado. Nele ela queria dar um abraço carinhoso e para ele trouxera também um presente: ovos de pata, que dariam lindos patinhos, depois de chocados numa galinha.
Mas o afilhado não apareceu. Se amuou, dizia mamãe. Então uma comitiva  saiu à minha procura. Andaram pelo quintal, foram à fonte, desceram pela cabeceira da grota que passava pelo lado direito da propriedade, mas nada encontraram. Foi quando o meu primo chegou e falou que eu era tímido, que não gostava de ser abraçado, que tava ficando bicho do mato. Devia estar em cima de alguma árvore.
      Então o grupo, depois de olhar o tamarineiro, a jaqueira, o oitizeiro, se dirigiu para o fundo do quintal, onde havia um enorme pé de sapucaia. Lá em cima dele estava eu. O medo de ter que abraçar a madrinha e as primas me levou ao topo da sapucaia. E ali eu fiquei, por três dias seguidos, até que as visitas foram embora. Lá eu passava os dias e dormia as noites. E para sobreviver, comia castanha de sapucaia e bebia maracujá de raposa, cujo pé enramado na sapucaieira estava muito carregado. Dali não arredei  pé. Ali fiquei os três dias e as três noites. Feito bicho do mato. Até que as visitas se foram.