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AS DOZE CABEÇASDE CASCAVEL
Administrator Seg, 13 de Outubro de 2008 01:02 Imprimir E-mail

Foi há muito tempo atrás, lá nos grotões da Baixa-Funda. Eu andava muito pelo mato comento frutos silvestres. Certa vez, no fim de tarde, depois de caminhar muito, parei para beber na beira do  Ricardo, um riacho de água cristalina. Depois de improvisar um copo com uma folha de mata-menino, me agachei, enchi o copo de água e o levantei em direção à boca. Quando o copo ia chegando à boca vi, do outro lado do riacho, bem na minha frente, a menos de dois metros de mim, uma enorme onça pintada. A bicha me olhava com sede e fome e mostrava as presas enormes.

   Desesperado, atirei a água na cara da onça, peguei a catana que trazia comigo  e me atirei no mato, correndo tresloucado. Corria que corria. E a onça vinha atrás.

Para piorar as coisas, o matagal era só de unha-de-gato e macambira, cada espinhão me rasgando a roupa, o sangue jorrando. Quando a unha-de-gato fisgava a calça e eu sentia o baque, metia a catana, thá! thá! thá!, cortava a folha, correndo sem parar. A onça vinha logo atrás, e eu podia sentir o rasgo que a unha-de-gato fazia na pele do bicho, que não tinha catana para cortar o mato. Cerca de uma hora depois, já todo suado, mas ainda correndo muito, a noite nos pegou. A onça já ia ficando para trás. Mas a unha-de-gato comia na minha roupa e eu, thá!thá! thá!, ia só cortando as folhas com a catana. Era muito rápido, não dava para olhar. Além do mais, depois que escureceu era que não se via mais nada. Algo batia na minha calça e lá ia a catana, thá! thá! thá!, cortando tudo. Duas horas depois, cheguei à tapera de telha onde morava. Tava tudo escuro. Acendi uma lamparina. Procurei a onça. A danada tinha ficado para trás, se perdido na unha-de-gato e na macambira. Foi então que resolvi tirar os espinhos da roupa, as folhas de unha-de-gato que ficaram penduradas nas pernas da calça e nas mangas da camisa. A lua era fraca. Mas mesmo assim percebi algo esquisito: algumas folhas tinham texturas diferentes das outras. Eram mais lisas e mais viscosas. Pareciam estar sangrando. Pensei que fosse sangue meu, dos ferimentos provocados pelos espinhos. Acendi outra lamparina com um pavio mais forte. Tive, então, um susto: junto com as folhas de unha-de-gato e de macambira havia doze cabeças de cascavel. Estavam todas penduradas na calça. Pensei comigo... e quantas outras não teriam caído pelo caminho?