A tarde já caía, lançando o crepúsculo vermelho sobre os horizontes. Há algumas horas eu viajava na garupa do Ruço, colado no corpo da professora. Sentia o cheiro de bálsamo silvestre e, inebriado pelo seu perfume, viajava na fantasia e no devaneio. Corria por um caminho cheio de estrelas, desesperado, o coração palpitante, tentando agarrá-las. Em vão. As minhas pernas não correspondiam aos meus anseios e, desiludido e fatigado, me atirava na areia e me lambuzava todo.
Já não era a primeira vez. Sempre, na sexta-feira, eu era o escolhido para deixar a professora em casa, na Boa Lembrança. Outras vezes já estivera lá, cercado de moças bonitas, todas irmãs da professora. O seu pai, um senhor de idade já avançada, tinha a cabeça meio baixa, o olhar distante e o jeito brincalhão. Adorava contar piada e, não raro, soltar gases. Sempre que o fazia, dava enormes gargalhadas e saía perguntando quem fora. Quando ele me perguntava, eu morria de vergonha. Me sentia um peixe fora d’água, um bicho do mato, todo desajeitado.